22 horas dentro de um ônibus

Eu nasci em Itararé, uma cidade no fim do mundo no interior de São Paulo, já na divisa com o Paraná, ou seja, longe de tudo. E como passei a vida migrando de cidade em cidade, muitas vezes os ônibus eram a única opção para visitar os parentes que ainda moram lá. Essas viagens não costumavam durar mais do que seis horas, então sempre achei tranquilo utilizar esse meio de transporte.

Como eu contei aqui, antes mesmo do nosso embarque para a Argentina, já havíamos decidido percorrer o trecho de 1.600 quilômetros entre Buenos Aires e Bariloche de ônibus,  afinal o custo que era mais de 50% menor do que ir avião. Decidimos ir pela empresa Via Bariloche porque havia lido muitos relatos que a recomendavam. Compramos os bilhetes diretamente no guichê no Terminal Retiro e custou aproximadamente dois mil pesos pra nós dois, ida e volta. Na época isso dava pouco mais de R$ 900,00. Só para entender a diferença, as passagens aéreas para esse trecho não saíam por menos de R$ 2.500,00 para nós dois. Além disso, todos os relatos que li diziam que a paisagem do caminho era deslumbrante.

No dia da viagem, chegamos na rodoviária com uma hora de antecedência e fomos direto para a plataforma informada no bilhete. O terminal estava lotadíssimo, porque com os aeroportos fechados por causa das cinzas do Vulcão Puyehue, os turistas (maioria brasileiros) estavam desesperados tentando voltar para suas casas de ônibus. Pra ajudar o trânsito ao redor da rodoviária estava totalmente parado, impedindo a chegada e partida dos ônibus, atrasando todas as viagens. 

Achei muito interessante as televisões que você coloca moedas e pode se entreter enquanto espera o embarque. Não tinha nada interessante pra ver, mas a ideia é boa.

Já faziam três horas que estávamos aguardando quando decidi comprar algo para comer. Na volta da lanchonete eu vi o Thiago acenando pra mim que o ônibus tava saindo de outra plataforma. Ele disse que os nossos nomes haviam sido anunciados no alto falante, mas meu nome pronunciado com o sotaque espanhol com certeza passou despercebido por mim. (rs!)

Saímos correndo e conseguimos entrar no ônibus. Foi uma felicidade ver que era um veículo do tipo leito, com as poltronas mais largas e reclinando a 180 graus (é óbvio que havíamos pago pelo bilhete mais barato, com poltronas convencionais). O ônibus vazio (praticamente só nós dois de passageiros), as divisórias entre as poltronas eram bem altas. Nos jogamos nos assentos com um sorriso que não cabia no rosto.

Mas nossa alegria durou pouco. Após cerca de uma hora, o ônibus entrou em outro terminal rodoviário, ainda dentro da cidade de Buenos Aires e nos mandaram trocar de veículo. Que tristeza! Tivemos que nos acomodar nas poltronas convencionais, apertadas e quase sem espaço para os braços. E pior: ainda faltavam 21 horas para o fim da viagem!

Logo o sol começou a se por e já foi servido um lanchinho: café com biscoito salgado, geléia e um alfajor. Também colocaram filmes e assim as horas foram passando um pouco mais rápido.

Na minha santa ingenuidade, eu pensei que o ônibus fazia paradas em lanchonetes (como acontece aqui no Brasil), onde eu poderia usar o banheiro e até comprar alguma coisa pra comer. Mas não. Em 22 horas de viagem, o ônibus só entrava nas rodoviárias das poucas cidades que existem no trajeto, parava por menos de cinco minutos e só permitia que descessem as pessoas que estavam desembarcando. Ou seja, eu teria que usar o banheiro do ônibus. Eu confesso: sou muito chata! Nunca havia usado banheiro em ônibus por achar que sempre estaria sujo e, naquele momento, eu era uma das únicas mulheres dentro do veículo. Mas depois de horas de viagem não teve jeito, fui obrigada a ceder… E não é que o banheiro estava limpinho? Ufa!

O jantar foi servido às nove da noite e tinha filé de frango, beringela, pãozinho, presunto, uma saladinha picada, refrigerante e um flan de sobremesa. Não era muito saboroso, mas deu pra matar a fome.

Em seguida voltaram a passar os filmes e foi assim até umas 3 da manhã. Os filmes eram novos e a maioria eu nem tinha assistido ainda. Em seguida dormimos. De repente o ônibus pára em um posto policial (acredito que na fronteira das províncias de  Rio Negro e Neuquén) e entram dois policiais, pedem os bilhetes para algumas pessoas e descem levando um rapaz. Depois de uns 40 minutos somos liberados para seguir viagem (sem o rapaz).

Quando acordamos, eram 8 horas da manhã e o dia ainda estava começando a clarear.  Logo serviram o café da manhã: duas medialunas com café. E começa a sessão de filmes novamente, mas dessa vez era um dvd do Piratas do Caribe 4 em péssima qualidade. Me desliguei do filme e comecei a olhar a paisagem que já tinha sinais de que estávamos mais perto do vulcão. Percebi que haviam poucos carros na estrada e todos estavam andando com farol alto aceso. A quantidade de cinzas foi aumentando e como eu já contei aqui, o dia virou noite quando passamos no meio da nuvem de cinzas.

Quando clareou novamente começamos a ver os lagos que apesar de toda a cinza acumulada ainda eram lindos. Depois de umas quatro horas chegamos em Bariloche.

Cinco dias depois, a volta foi tão tranquila quanto a ida, porém com um upgrade para assentos do tipo semi-leito. Isso fez toda a diferença no conforto.

Conclusão: A viagem é cansativa? Sim, bastante! Mas vale pela paisagem e economia. Faria de novo? Com certeza!

El Ateneo e a Parrillada Argentina

No quinto dia de viagem, nosso plano era conhecer a cidade de Tigre (a cerca de 30km de Buenos Aires). A ideia era ir com o Tren de La Costa e voltar de barco a até Puerto Madero. Mas quando chegamos no guichê para comprar as passagens, tinha um aviso de que as linhas estavam em manutenção naquele dia.

Na impossibilidade do passeio, sugeri que fôssemos conhecer a livraria El Ateneo, um dos lugares mais bonitos de Buenos Aires.

A livraria está instalada no prédio onde funcionava o Teatro Gran Splendid que foi inaugurado em 1919.  O palco, onde atualmente funciona um charmoso café, já recebeu apresentações de grandes personalidades do tango como Carlos Gardel e Ignacio Corsini e Roberto Firpo.

A cúpula exibe uma pintura fantástica: uma representação alegórica da paz, pintado no mesmo ano da inauguração, como uma festa para o final da Primeira Guerra Mundial.

Sem dúvida este é um passeio imperdível em Buenos Aires.

À noite, decidimos experimentar a famosa parrillada argentina. Mas nossa escolha foi um restaurante mais tradicional e que não tinha nenhum turista, o que acabou sendo uma experiência um tanto estranha e engraçada.

Logo que entramos no restaurante já fomos direcionados à uma mesa, porém quando fizemos o pedido da parrillada, nos pediram que sentássemos em uma mesa maior pois a parrilla (uma espécie de rechaud) não caberia naquela mesa.

O vinho foi o melhor que já tomamos em nossas vidas, perfeito! Pedimos uma porção de batatas fritas pois imaginaríamos que demoraria, mas no fim tudo chegou muito rápido.

Todos os cortes vinham em dois pedaços. No topo da pilha de carnes estavam os bifes de chorizo que estavam fantásticos, depois filés de frango também perfeitos, costelinha suína, e de repente tinha uma peça que tinha a mesma tonalidade dos filés de frango. Esperei o Thiago experimentar e a primeira coisa que ele disse foi: “Eu acho que comi uma orelha!”. Comecei a rir e peguei o que parecia ser uma linguiça, mas foi só colocar na boca e veio um gosto muito forte de sangue, como de fígado bovino. Eca!

Daí pra frente, só foi piorando até que os últimos itens eram duas bolinhas. Eu perguntei pro Thiago o que era e ele: “Isso mesmo que você tá pensando… testículos” Eca! Eca! Eca! Não tive coragem de experimentar.

Apesar dos cortes exóticos, chegamos à conclusão que valeu a pena, afinal experimentamos a tão famosa parrillada na forma mais tradicional. A conta, pelo que me lembro, deu o equivalente à uns cem reais. Considero que foi um bom preço pelo padrão do restaurante e era tanta carne que acabamos saímos satisfeitos de lá. Mas não sem antes pedir para o garçon registrar nossa passagem por lá.

Cemitério da Recoleta

Nosso quarto dia de viagem fomos conhecer o bairro da Recoleta e seu atrativo turístico nada convencional: o cemitério.  Quando estava montando o roteiro desta viagem, não me interessei em conhecê-lo. Mas nesse dia, passamos na frente dele e resolvemos entrar pra ver se era interessante.

O Cemitério da Recoleta, inaugurado em 1822, é considerado Museu Histórico Nacional desde 1946, por conter inúmeras obras de arte e também por ser o lar dos restos mortais de personalidades famosas da Argentina. A maior parte das abóbadas são das famílias aristocráticas do país.

A personalidade mais famosa sepultada lá é Eva Duarte de Perón, mais conhecida como Evita. Falecida em 1952, foi esposa do general Juan Domingo Peron e lutou como defensora dos trabalhadores. Seu túmulo é o mais visitado e sempre está com muitas flores.

O passeio acabou sendo interessante, mas ainda não considero imperdível. Se tiver pouco tempo em Buenos Aires, deixe este passeio para segundo plano.

La Boca e Puerto Madero

No terceiro dia da nossa viagem, aproveitamos que ainda restavam algumas horas de validade do bilhete do Buenos Aires Bus e aproveitamos a carona até o bairro de La Boca. Descemos no ponto que fica em frente ao Estádio La Bombonera.

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Entramos primeiramente no Museu Estádio do Boca e logo de cara você recebe uma overdose de Maradona. São muitas fotos e estátuas, além, é claro de muitos produtos relacionados ao Boca Juniors. Decidimos não conhecer o interior do estádio porque o preço era um pouco salgado e este era um passeio que não nos interessava.

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Em seguida fomos ao Caminito que fica a apenas dois quarteirões de distância.  É uma rua considerada tradicional e de grande valor cultural e turístico, mas na minha opinião não é nada disso. Não há nada além de lojas vendendo souvenires à preços absurdos e dançarinos de tango que cobram para tirar fotos. Que me perdoe quem gosta deste tipo de passeio, mas achei a rua superestimada e totalmente dispensável num roteiro por Buenos Aires.

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Quando chegamos ao final do Caminito, já havia acabado a validade de nosso ticket do Buenos Aires Bus. Então decidimos experimentar o transporte público para chegarmos em Puerto Madero. Não tínhamos a menor ideia de qual ônibus pegar, mas fomos pro primeiro ponto que encontramos e esperamos. Como eu já tinha observado os nomes dos bairros no mapa da cidade, decidi entrar no primeiro que tinha a palavra Retiro no nome da linha, pois sabia que teria que atravessar a cidade e obrigatoriamente passar perto de onde queríamos chegar.

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Quando entramos no ônibus achamos estranho não ter cobrador nem catraca. Apenas uma máquina onde você coloca as moedas e ela te dá o troco e imprime seu bilhete. Não há controle nenhum sobre quem paga ou não. E os passageiros parecem não se importar muito com o troco, as moedas ficam jogadas no chão do ônibus.

Pra nossa sorte, o ônibus entrava em Puerto Madero . Era hora do almoço e a maioria dos restaurantes deixa uma cópia do cardápio na porta, isso facilita para quem está com o orçamento curto. Acabamos encontrando um restaurante com preços bem convidativos.

Não lembro o nome dele, mas lembro de olhar o cardápio e não entender nada. Percebi que vários pratos tinham a palavra “pollo” no nome. Na época eu não tinha a menor noção do significado dela, então apontei para esta palavra e perguntei pra garçonete o que vinha naquele prato. Ela desatou a falar um monte de coisa numa velocidade impossível de entender qualquer coisa, só peguei a última palavra: deshuesado. Então perguntei se era frango e aí foi ela quem não entendeu nada. Então falei: “Chicken?” e balancei os braços imitando uma galinha. Demorou um pouco (eu acho que ela estava gostando da minha performance e queria aproveitar por mais tempo o mico que eu estava pagando) e ela disse: Sí!! Sí! Es pollo! Foi então que eu percebi que apesar de toda a dificuldade de comunicação, eu não queria comer frango… rsrs Escolhi uma massa e não me arrependi. O almoço foi maravilhoso e acho que pagamos algo em torno de 55 reais para nós dois. Foi barato pelo padrão do restaurante e valeu muito a pena.

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Em seguida fomos andar pelo calçadão existente à beira do canal. Decidimos conhecer a Fragata Sarmiento, o primeiro navio da Argentina que atualmente é utilizado como museu. Ela foi construída na Inglaterra e está atualmente aportada no Dique III. Já fez 39 viagens ao redor do mundo em missões de paz, num total de 1,1 milhões de milhas náuticas

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Pagamos o equivalente à R$ 1,00 por pessoa para conhecê-la por dentro e, ao contrário dos museus que proíbem o uso de equipamentos fotográficos em seu interior, na fragata você está livre para fotografar tudo.

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É possível ver os dormitórios pelas janelinhas das cabines, conhecer o espaço onde as refeições eram feitas e do outro lado da embarcação estão as peças do final do século XIX e início do século XX.

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Depois fomos conhecer a Puente de La Mujer que é obra do arquiteto espanhol Santiago Calavatra e foi inaugurada no ano 2001. Dizem que foi inspirada na imagem de um casal dançando tango (sinceramente não consegui enxergar isso, mas ela é muito bonita).

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Resolvemos ir embora a pé e aproveitar para conhecer a Plaza de Mayo que é a principal praça do centro da cidade e é onde fica a Casa Rosada (sede da presidência da Argentina).

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 A Praça sempre foi o centro da vida política de Buenos Aires, desde a época colonial até a atualidade. Recebeu este nome em homenagem à Revolução de Maio de 1810, que iniciou o processo de independência das colônias da região sul da América.

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Em seguida formos direto para o hotel porque estávamos exaustos de tanto andar e nos contentamos em jantar a pizza do Ugi’s novamente.

Calle Florida e Galerias Pacifico

Como eu contei neste post, no segundo dia da nossa viagem, resolvemos fazer o passeio de ônibus Buenos Aires Bus Tour, mas não pudemos concluir o trajeto por causa do trânsito que fez o ônibus retornar para o ponto inicial.

Como ainda era por volta de 13h30, decidimos conhecer a região central da cidade. E começamos pela Calle Florida. Na verdade ela é um calçadão, que se estende a partir da Avenida Rivadavia até a Plaza San Martin. Ela é repleta de lojas e é um paraíso para quem gosta de fazer compras. 

                           Calle Florida

Mas, como nós estávamos numa viagem econômica, nos limitamos a conhecer toda a extensão da rua, a famosa loja de departamentos Falabella , onde compramos apenas um gorro pro Thiago e um casaco pra mim em uma outra loja da Calle Florida, já que as roupas que eu tinha levado não estavam dando conta do frio.

Depois foi a vez do Shopping Galerias Pacífico, que fica na esquina da Calle Florida com a Avenida Córdoba. Foi declarado Patrimônio Histórico Nacional por sua arquitetura maravihosa.

Ele tem mais de 150 lojas de marcas conhecidas, como Lacoste, Adidas, Ferrari, Swarovski, várias lojas de cosméticos, sendo o queridinho dos turistas. Os preços não cabiam em nossos bolsos, mas aproveitamos para passear e fazer as refeições em seus restaurantes.

                Afrescos no teto da galeria
     O interior do Galerias Pacifico é lindo!!

É claro que aproveitamos também pra conhecer os sorvetes da Freddo:

E foi justamente na Sorveteria Freddo que encontrei o melhor café da manhã de Buenos Aires (depois de uns dias já estava enjoada das medialunas e dos tés). Não lembro exatamente o valor, mas foi em torno de dez reais para nós dois comermos tostadas com geléia e cream cheese, suco, café com leite e é claro uma bola de sorvete.

De lá fomos até o Terminal Retiro comprar as passagens de ônibus para Bariloche, onde conheceríamos o vulcão safadinho que quis atrapalhar nossas férias. Depois voltamos pro hotel porque estava chovendo e frio, tempinho perfeito pra descansar ao lado do aquecedor.

No terceiro dia ainda aproveitamos as horinhas que tínhamos de validade do bilhete do Buenos Aires Bus para uma carona até La Boca para conhecermos o Caminito e o Estádio La Bombonera, mas isso eu conto no próximo post.